Aquecimento global aumenta enchentes em São Paulo

Aquecimento-global-aumenta-enchentes-em-São-Paulo

É difícil para um morador de São Paulo imaginar uma vida pior. Mas novas simulações de computador sugerem que o aquecimento global pode mais do que dobrar o número de chuvas com potencial de causar enchentes até o fim do século.

Numa das primeiras modelagens do gênero feitas para a América do Sul, um grupo do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e da Universidade de Reading (Reino Unido) estima que o aumento de temperatura, entre 2070 e 2100, poderá produzir mais 16 dias no ano com chuvas além de 10 milímetros no sudeste do continente.

Chuvas com essa intensidade em um só dia são consideradas eventos meteorológicos extremos e, em cidades como a capital paulista, também são sinônimo de caos.

Nos últimos 40 anos, como os paulistanos podem sentir todo verão, o aquecimento anormal da Terra já vinha aumentando o potencial de enchentes. Estima-se que hoje o número de dias num ano com chuva acima de 10 milímetros já seja 12 a mais do que a média. Somando isso às novas projeções, o Sudeste ganhará quase um mês de chuva extrema no ano.

Essas projeções, que levam em conta um aquecimento médio de 2ºC a 3ºC na região, dão pela primeira vez aos formuladores de políticas públicas uma ideia da dimensão da tragédia futura possível. Elas ainda são preliminares, mas, quando forem refinadas, poderão finalmente permitir a prefeitos e governadores que comecem a planejar a infraestrutura de combate às enchentes para adaptar as cidades ao seu novo clima.

“Hoje já não se fala mais em eventos extremos em termos de quanto vai chover, mas sim em termos de desastres naturais. Se as galerias pluviais de uma cidade são grandes o bastante, o extremo não vira desastre”, disse à Folha o climatologista José Marengo, do Cptec (Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos) do Inpe. Ele é o autor principal do artigo científico que apresenta o resultado das simulações, publicado na última edição do periódico “International Journal of Climatology”.

Marengo e seus colegas usaram em sua projeção um modelo climático da América do Sul desenvolvido pelo Hadley Centre, o centro de climatologia do governo britânico.

Ele foi cruzado com observações de uma série de variáveis meteorológicas (número de noites muito frias e muito quentes, número de vezes em que chove cinco dias seguidos e número de dias secos consecutivos) observadas no continente a partir dos anos 1960.

A ideia era ver primeiro se o modelo conseguiria reproduzir fielmente as condições observadas. Depois, projetar o futuro clima sul-americano em dois dos cenários de emissão de gases de efeito estufa apresentados pelo IPCC (o painel do clima da ONU): o A2 (até 4ºC de aumento de temperatura) e o B2 (entre 2ºC e 3ºC de aumento de temperatura).

No geral, o modelo computacional passou no teste, mas não sem problemas. Afirmou, por exemplo, que o sudeste sul-americano assistira nos últimos 40 anos a uma redução no número de vezes em que chove por cinco dias seguidos – quando o observado foi exatamente o oposto.

“Foi por isso que usamos diversas variáveis“, diz Marengo. “O número de dias com mais de 10 milímetros de chuva é uma das mais confiáveis.” Mas mesmo nessa variável há incertezas – no cenário A2, os extremos de chuva são deslocados para o Sul do Brasil.

O grupo do Inpe quer agora fazer a mesma simulação em um modelo computacional brasileiro e cruzá-la com dados econômicos. “Não adianta nada eu chegar para o prefeito e dizer que vai chover 12 dias a mais no fim do século”, afirma Marengo. “Temos de dizer quanto isso causará em perda de horas de trabalho.”

Fonte: noticias.ambientebrasil.com.br

Deixe um Comentário

Proudly designed by Clickmidia.